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sexta-feira, 18 de junho de 2010

PERU PEDE LICENÇA À FRANÇA





Ceviche chifa do mais novo restaurante latino de São Paulo






Assim como os meus jantares-testes, os textos sobre eles acabam se prolongando quase indefinidamente. Acontece que, em ambos os casos, vão surgindo coisas muito interessantes no caminho que desviam a minha atenção. Por isso, espero que quem estiver seguindo a série sobre o jantar de comida do sul da França (se é que há alguém com tanta paciência) me desculpe. Preciso voltar ao assunto Peru.
Abriu recentemente em São Paulo uma cevicheria que promete, o Suri Ceviche Bar. Os dois sócios, o brasileiro Rodrigo Yoshimura e o colombiano Dagoberto Torres, trabalharam no restaurante D.O.M., do überchef Alex Atala. Só isso já é uma bela credencial.
Mas o que mais despertou a minha curiosidade foi saber que o cardápio mistura diversas influências latino-americanas. Lá eles têm até um ceviche chifa (sino-peruano). Mais uma oportunidade para quem quer experimentar a cozinha chino-peruana de que tanto falei no mês passado. Vários pratos têm o tal do ají amarillo. Gostaria de saber onde eles encontraram. Imagino que seja pasta de ají amarillo importada. Sei que há um produtor plantando aji amarillo para o La Mar, o restaurante de Gastón Acurió em São Paulo. Mas o Gabriel, assessor da casa, me disse que é exclusivo.
Há também ceviche mexicano, corvina caribenha e o patacón, uma banana da terra frita que se come na Venezuela e na Colômbia. Há anos o estilo gastronômico que se conhece como nuevo latino é moda nos Estados Unidos. Parece que agora chegou por aqui de vez.
O Suri fica em Pinheiros, perto do Chou. O bairro definitivamente é o pólo paulistano da bistronomia (comida de chef com preço de cantina). Qualquer hora dessas eu vou lá e, depois, conto para vocês.

Rua Mateus Grou, 488, Pinheiros, São Paulo, SP
Telefone: (11) 3034-1763

segunda-feira, 14 de junho de 2010

APRENDENDO COM A PRÁTICA



















Na primeira foto, as empanaditas: meio remontadas depois de um certo desastre. Na segunda, o tacu-tacu: uma delícia, mas, além de só eu e o Marcos termos provado o prato que saiu de madrugada, o feijão ficou bem mais mole do que o imaginado e não deu para ser frito como um "hambúrguer"


No sábado, fizemos o segundo jantar do meu blog e, ao contrário do que eu tinha prometido, não acabei os posts sobre o jantar peruano do mês passado. Farei isto neste instante para, hoje mais tarde, começar os posts sobre o jantar provençal na casa da Juliana. Não vou encerrar o tema, ele pode voltar a qualquer momento. Mas vou contar o fim da história, ou seja, no que deram as receitas na prática.
No caso das empanaditas, como já contei, nós esquecemos de finalizar o recheio com o molho de ostra e, não sei se vocês perceberam, acrescentei a tal batata seca no lugar do chuño, que depois vim a descobrir que não era batata e, sim, uma espécie de farinha. Mas todos amaram o sabor. O comentário geral foi, por sinal, de como uma receita de feche tem sabores mais equilibrados que aquelas que a gente prepara por melhor que a gente cozinhe. Eu acho que, se o chef for bom, em geral, é assim mesmo. O cozinheiro doméstico costuma fazer pratos pungentes, mandar bala nos temperos, caprichar nos ingredientes preferidos da família. Os chefs são mais precisos, técnicos, não ceder tanto aos paladares individuais. Bom, de qualquer forma, o recheio das minhas empanaditas acabou não sendo exatamente igual ao criado pelo Gastón Acurio. Não tinha o molho de ostra e tinha as tais das batatas.
Houve um outro probleminha com a primeira leva de empanaditas. Só para lembrar, as tais empanaditas são feitas de uma massa oriental chamada sui mai, que lembra muito a massa do guioza. Eu, na verdade, fiz com massa de guioza. Elas eram recheadas de porco, frango, langostim e vegetais, cozidas no vapor e passadas na frigideira. O problema foi na hora de cozinhar na minha linda cestinha de madeira comprada naquela tarde. Os pasteizinhos colaram no fundo. Conclusão, ficaram um tanto arrebentadinhos. Na segunda e na terceira leva, passei azeite na madeira. Dias depois, voltei à Liberdade para comprar mais uma cestinha (para não ter um intervalo muito grande entre as várias levas). Lá as vendedoras, japonesas, me contaram que tradicinalmente, eles usam um paninho muito fino e poroso entre o pastel e a madeira. mas elas não tinham esse paninho para vender. Vou ver se arrumo alguns para a próxima vez que for usar minhas cestinhas.
O molho de maní (amendoim) ficou perfeito. Levou pasta de ají panca, que fiz re-hidratando o ají panca, descascando-o e passando-o por um mixer de mão.

Aprendizado número 1.
Os pasteizinhos orientais (quase um pleonasmo), como qualquer pastel, têm de ser preparados e montados com bastante antecedência. Eu deveria ter feito o recheio e montado os pastéis à tarde, ou até de manhã, deixando todos prontinhos, enfileirados em uma forma na geladeira, esperando só para serem cozidos e fritos à noite.

Aprendizado número 2.
Massa gruda na forma e entre si. A tal cestinha de madeira não foge à regra. Mas falta descobrir qual a melhor maneira de evitar que isso aconteça nesse caso.


Quanto ao tacu-tacu, é claro que eu tinha cozinhado o feijão e o arroz antes de tudo. Mas deixei para temperá-los só depois de comermos as empanaditas. Big mistake! A receita prevê que a mistura de arroz-feijão, que lembra um baião-de-dois com pasta de ají amarilo (preparada da mesma forma que a pasta de ají panca), depois depois de pronta, seja montada numa forma que lembra um hambúrguer e frita. Ou seja, ela tem que ter consistência de bolinho para poder ir à frigideira. E a gente sabe, mas eu esqueci na hora, que essas misturas precisam esfriar para endurecer. Pois é, eu tinha de ter feito o tal arroz-feijão, no mínimo, logo no início da noite para poder fritá-lo. De qualquer forma, montamos a receita em um prato fundo, como o arroz-feijão embaixo e ovo e a salsa por cima. Ficou bem bom.

Aprendizado número 3
Se eu quero fritar um bolinho de alguma mistura, tenho de prepará-la com antecedência suficiente para que esfrie. As misturas ficam molengas quando quentes.


Hecho!!!!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Biblioteca



A idéia de trazer as pessoas para a minha cozinha/biblioteca gastronômica e, assim fazer algum uso dos meus livros de comida,além do decorativo, deu bastante certo. No caso do jantar chifa (sino-peruano), que levou horas para ficar pronto, isso foi fundamental para entreter os convidados. Na foto, Juliana lê o livro La Cuisine des rues, de Israel Aharoni, com fotos de Nelli Sheffer. O livro, que comprei em Paris por uma bagatela numa daquelas banquinhas que as livrarias do Quartier Latin montam na rua em frente à loja há uns três anos, não é de receitas. É quase uma reportagem, bastante fotográfica, dos hábitos alimentares nas ruas de 12 países, em diferentes partes do mundo. Há um capítulo sobre o Peru, no qual eles mostram pamonhas, muitas batatas diferentes, um pimentão verde frito recheado de queijo e uma mulher de origem indígena preparando um chicharrón de cerdo (algo bem parecido com um porco pururuca). No fundo, há uma receita de cada país. A do Peru é um ceviche.
Enquanto ela lia, eu montava as empanaditas. Detalhe que só descobri depois, eu e o Marcos esquecemos de finalizar o recheio com o molho de ostra. Reparei isso porque, ao final da noite, a garrafa permanecia intacta e fechada.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Rocoto amarillo


Quem acompanha este blog do início sabe que a grande dificuldade de executar a receita de tacu-tacu do livro do peruano Gastón Acurio era encontrar os ingredientes. Em especial os ajís amarillo e panca. Nos post passados contei minha insana jornada por São Paulo atrás dessas duas pimentas típicas dos países andinos e como as encontrei, por fim, em uma pequena feira dos imigrantes bolivianos de São Paulo que hoje se concentram no Bom Retiro. Além do´amarillo e do panca (secos e em pó), encontrei outro ají típico, o rocoto. Esse, fresco.
No meio dos rocotos, no entanto, havia uma pimenta amarela que desconfiei ser um ají amarillo não só pela cor como também pelo formato alongado, diferente da look maçã dos outros rocotos. Resolvemos usá-lo não só na salsa do tacu-tacu (veja post huevos y frejoles, de 15 de maio) mas também no ceviche que o Marcos fez, já que esse não estava atrelado a nenhum teste de receita do blog.
Na hora que abrimos, no entanto, vimos que o dito cujo tinha sementes negras (foto). Segundo o livro Pimentas com suas receitas de Nelusko Linguanotto Netto, a única pimenta (capsicum) que tem sementes pretas é o rocoto. Pimenta-do-reino, para quem não sabe, não tem nada a ver com as outras pimentas. É outra planta de um gênero completamente diferente. Os ajís ou chilis, como são conhecidos por todos latinos americanos menos nós brasileiros, são frutos de plantas do gênero capsicum. A pimenta-do-reino é fruto do Piper nigrum. No ano passado, fiz um curso sobre isso com minha amiga Lourdes Hernandez, La Cocinera Atrevida, mexicana radicada em São Paulo. Assim que conseguir encontrar minhas anotações em meio à bagunça pós-pintura de meu apartamento, eu passo algumas noções dessa aula para vocês. Hoje paro por aqui porque às 17hs começa o Encontro Mistral 2010, a feira de vinhos organizada pela importadora Mistral que reúne uma série de bons e sérios produtores do mundo todo. Muitos deles vêm pessoalmente. Adoro falar com eles, descobrir sobre seus cotidianos.

domingo, 6 de junho de 2010

Pipoca ou piruá



O milho azul que os peruanos comem frito como pipoca estoura, mas não estoooura. Quer dizer, ele não abre em flor branca como nossa pipoca. Porém seu miolo fica macio. Por isso, não deixe ele horas no fogo esperando pelo que não vai acontecer, senão ele queima. O que fizemos em nosso jantar peruano ficou com alguns grãos queimados. Mas deu para ir entretendo o povo enquanto o jantar não saía. Ou seja, por horas.

sábado, 29 de maio de 2010

Promessa é dívida


Continuo sem casa e, agora, estou também com o dedo machucado. Por isso, não estou postando. Mas, pelo menos, aí vai a foto do ceviche prometida.

sábado, 22 de maio de 2010

Sem teto e sem imagem

Hoje não vou publicar nenhuma foto porque estou escrevendo num computador emprestado. Por isso, também algumas palavras sairão sem acento. Acabo de descobrir onde está o til. Fui expulsa de casa pelo Wagner, o pintor que está dando uma geral no meu apartamento. Desde quinta, ele vem tentando que eu desocupe o quarto para ele adiantar o serviço. Na verdade, fui pega meio de surpresa. Liguei para ele na terça, depois de tomar um cano de outro pintor, achando que ele viria mais para frente. Como quis começar logo, não tive tempo de encaixotar, guardar, jogar lixo fora. Fui fazendo isso enquanto ele já trabalhava. Um caos. Estou há 3 dias só empacotando coisa. Como eu junto tralha! Que dificuldade de me desvencilhar de qualquer arame velho! Livro, então, sai pelo ladrão. Isso ficou muito pernóstico? Mas não é que eu leia tanto assim. Além de comprar vários, recebo muitos lançamentos das editoras. No ano passado, principalmente, na época em que eu editava o Quem Pensa, as páginas de cultura da revista Quem, recebi milhares de coisas, autores que estão se destacando, escritores consagrados, clássicos, best seller, auto-ajuda. Claro, fiquei apenas com aqueles que achava que poderia ler inteiros um dia. Mesmo assim são centenas. Não vou ler metade nem que eu viva 100 anos.
No post programado para hoje, a imagem não faz tanta falta. Vou falar do preparo das empanaditas, que podemos chamar daqui pra frente de pastéis. Eram umas 23h quando comecei o pré-preparo do recheio. Mas, pelo menos, fiz o pré-preparo. Isso é importantíssimo se você quer seguir uma receita. Não dá para descobrir que precisa de gengibre ralado na hora em que a panela já está no fogo. Conferi a receita, separei os ingredientes, cortei o que tinha de cortar, tudo antes de começar. Foi o que garantiu que o jantar saísse em tempo viável. Foi por isso também que descobri que a receita levava amendoim e, não, mandioca.
Enquanto eu fazia isso, a Juliana estourou o tal milho azul que eles comem como pipoca. Estourar é modo de dizer: o negócio parece um monte de piruá. Mas eu gosto de piruá. Fomos enganando o estômago com isso, que não é um petisco chifa especificamente, mas peruano de modo geral, assim como o ceviche que Marcos nos preparou quando liberei a cozinha. Ficou divino, o robalo cozido muito levemente pelo limão, o coentro aparecia, mas não agredia e, além de um tanto de dedo-de-moça,o Marcos experimentou colocar uns pedacinhos de uma pimenta amarela fresca que veio junto com os rocotos e nós desconfiávamos que poderia ser um aji amarillo clandestino. Não era. Explico o por quê no próximo post. Assim que tiver acesso às minhas imagens, prometo também postar uma foto do ceviche.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Salud!



Juliana, Marcos e Simoni abrindo os trabalhos. O pisco sour


Como eu já disse em algum momento lá atrás, cheguei em casa às 22h junto com os convidados. Na verdade, passei para pegar o Marcos depois que saí do Santa Luzia. Fomos, então, ao Pão de Açúcar que fica a algumas quadras de casa, em frente ao prédio dele, comprar gelo. Quem estava por lá comprando um vinho? Juliana, na fila do caixa com uma garrafa de tinto. Perguntou o que eu achava? Falei que ela escolhesse o que preferia tomar, mas contei o que tinham me dito pouco antes sobre o por quê de feijão e vinho tinto não combinarem. O resultado foi que trocamos o tinto por um prosecco.
Isso me tomou mais alguns minutos. Sorte que já havia avisado a Simoni por telefone que me atrasaria. Quando cheguamos em casa, pusemos o prosecco no freezer e abrimos o espumante português que estava na geladeira há cerca de uma hora. Estava quente. Marcos trocou por cerveja. Eu e Juliana insistimos.
Coloquei o feijão na panela de pressão. Guardei o que dava para guardar. Lavei os objetos novos. Nesse meio tempi, Simoni chegou com um vinho tinto. Juliana aderiu.Mas logo oMarcos preparou para nós um pisco sour. Drinque mais típico do Peru, é preparado com o destilado de uva, limão, açúcar, clara de ovo e angostura. Marcos tinha levado toda a parafernália, inclusive a coqueteleira para preparar a bebida. Ele é um seguidor de receitas. Não literal, mas muitas vezes lê as receitas, grava e depois repete. Não sei de onde tirou a receita do drinque, mas era cheio de truques de barman, tipo, o açúcar já veio diluído em um jarrinha.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Feijão não vai com tinto porque tem tanino demais



Chegando do Bom Retiro, larguei as compras em casa, peguei o carro e voltei na Liberdade. Já eram umas 19h30. A Marukai estava vazia. Foi razoavelmente rápido. Fora dúvida entre comprar massa para wantán ou massa para guioza, já que não havia massa para sui mai. Acabei optando pelo guioza. Além dos ingredientes, comprei umas porcelanas azuis em estilo japonês lindas, a bandeja chinesa de melamina e mais um presente para a Simoni, um conjunto de palitinhos muito fofo, com um desenho de umas gueixas. Fiquei feliz, porque ela sempre me dá presentes pensados e eu não queria comprar qualquer coisa.
De lá, fui correndo para o Santa Luzia. Logo que entrei, vi um sujeito que tinha encontrado à tarde na peixaria do Mercadão. Comprei o porco e o frango já picadinhos para pastel, um foccacia de azeitona maravilhosa (nada chifa, mas que salvou a pátria diante do atraso da comida)e dois vinhos. Os vinhos foram recomendação daquele sócio que está sempre na adega, acho que é seu Luís, mas não tenho certeza. Expliquei que se tratava de um jantar peruano que incluía até feijão e que, apesar de saber que a melhor harmonização no caso seria cerveja, eu nunca bebia cerveja. Ele sugeriu, então, um espumante português rosé da Aliança. Segundo ele, o feijão tem muito tanino e, por isso, não combina com vinho tinto. Um branco, em compensação, corria o risco de desaparecer na boca. O gás do espumante lava a boca. Por ser rosé, feito a partir de uvas touriga nacional e baga, esse rótulo poderia ter a presença necessária no caso. Confesso que, na hora em que bebi o espumante com o tacu tacu estava tão quebrada que nem prestei atençãoo se combinava ou não. Pelo menos não agredia, o que acho que seria o caso de um tinto encorpado. Abaixo a ficha técnica do vinho encontrada no site da vinícola:

Aliança Rosé Bruto


Cor: Rosé

Capacidade: 750 ml

Grau: 12% vol.

Castas: Baga - Touriga Nacional

Estágio: 12 meses em garrafa antes do dégorgement.

Vinho espumante rosé bruto, elaborado a partir das castas Baga e Touriga Nacional. A leveza e frescura que o caracteriza torna-o ideal para os seus momentos de convívio, assim como um perfeito acompanhamento de pratos à base de peixes, mariscos ou pastas.


Notas de prova


Características Visuais: Cor salmão.

Características Olfactivas: Frutado com aroma a morango e groselha.

Características Gustativas: Na boca revela frescura e uma suavidade persistente.

Temperatura Ideal: A temperatura ideal de consumo situa-se entre 6ºC e os 8ºC.

Gastronomia: Recomendamos o seu consumo como aperitivo, em momentos de convívio, ou acompanhando pratos de peixe, marisco ou pastas.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Em busca do ají amarillo III


A foto está péssima, sorry, mas dá para ter uma ideia. Os mais cumpridos são os ajís, o amarelo é o amarillo e o vermelho, o panca. O redondinho, o rocoto.

Pois é, eu encontrei o ají amarillo. Já eram mais de 18h30. Chovia canivetes. Rodei para caramba com o táxi para chegar lá. Paramos tudo quanto é boliviano do Bom Retiro para pedir informação -- olha que não tem poucos bolivianos no Bom Retiro. Mas encontrei. Não fresco, porque é muito difícil. Embora eu ache que ainda vou encontrar. Mas encontrei seco e em pó. Na mesma banquinha, achei também ají panca (seco e em pó) e rocoto fresco, uma outra pimenta típica do Peru, que não vai nessas receitas, mas vai em outras que tenho de testar logo antes que o rocoto estrage. Ali tinha também uma série de batatas diferentes. Comprei ainda um milho que não estoura, mas que se come como pipoca e um pacote de batata seca. Juan Carlos, o dono da barraca me disse que sua mãe mantém uma barraca com esse tipo de ingredientes todas as noites na avenida Rio Branco. E que alguém do lado prepara comida peruana. Eu devo ir lá procurar a mãe do Juan Carlos e experimentar essa comida um dia desses e aviso para os interessados.
Nessa feira, o tempo inteiro tive de falar em espanhol. Eles não falam português. Eu era a única pessoa que não era boliviana ali dentro. Pareciam espantados com a minha presença. Mas muito simpáticos. Só pareciam não estarem acostumados a serem vistos pelos brasileiros. Foi louco penetrar nessa São Paulo invisível. As duas histórias estavam um tanto misturadas na minha cabeça: a dos chifas em Lima no século XIX e a dos bolivianos no Bom Retiro do século XXI. A primeira teve um final feliz. Depois de muito explorados, os chineses conseguiram se estabelecer em Lima. Não sei se viajei demais, me emocionei com o meu próprio delírio e acabei sendo piegas, mas desejei de coração que esse também seja o destino desses bolivianos. Voltei para casa feliz comigo mesma por ter cumprido uma missão: eu penetrei nos subterrâneos da cidade e achei no ají amarillo.

Em busca do ají amarillo II




Depois de uma pequena paradinha na ladeira Porto Geral para comprar um presentinho para minha mãe (no dia seguinte era dia das mães) e outra na 25 para comprar um anel para a Simoni (ela tinha feito aniversário no dia anterior), finalmente cheguei ao Mercadão. Devo confessar que teve mais um efeito moral do que prático. Não tinha nada que eu precisava por lá. Quer dizer, comprei um robalo para o Marcos fazer um ceviche de entrada pra gente, os lagostins da receita da empanadita e verduras. Mas nada que eu não achasse num bom supermercado. E os preços estão de supermercado. Queriam me cobrar R$ 5 num quilo de feijão. Valeu especialmente pelo suculento sanduíche pernil que almocei às 17hs no Hocca Bar, no mezanino do mercado.
Na verdade, se eu não tivesse ido ao Mercado Municipal, não teria descoberto a feirinha boliviana onde finalmente achei os ajís. Desde que desembarquei na Liberdade, saí perguntando para todo mundo que ouvisse falando em espanhol se eles sabiam onde encontrar o aji ou se sabiam o queria dizer col china. Na feira de artesanato da Liberdade, uma chilena havia me dito que eu encontraria ají amarillo no Empório Sírio, que fica no caminho do Mercadão. Estranhei, mas entrei e perguntei. Claro que não tinha. Em seguida, parei uma família de bolivianas e perguntei. Elas me falaram da feira de domingo. Eu sabia da feira boliviana de domingo e achava que talvez lá achasse os ajís. Mas meu jantar era no sábado. Não adiantava. Então, elas me indicaram uma feirinha muito pequena que acontece todos os sábados na rua Nhanhaia um pouco acima da rua Jaraguá, no Bom Retiro.

No meio do caminho



Talvez alguém lembre. Fui à pé da Liberdade ao Mercadão. No meio do caminho havia a montagem da exposição Aguilar 50. Mais uns 20 minutinhos de demora. Acho que meus convidados vão me matar depois de ler este blog.

O Capón é aqui



A louca aqui não foi apenas atrás dos ingredientes para o jantar. Comprei também utensílios e objetos de decoração. Quando faço um jantar temático, a casa tem de entrar no espírito. A minha decoração chifa ficou mais para o nipo-nordestina do que para o sino-peruana. Mas, garanto, tinha tudo a ver. Minha busca pela cultura chifa das ruas de Lima havia me levado à miscigenação cultural das ruas de São Paulo. Buscando a cultura deles, descobri muito da nossa cultura.
Nesta foto, vocês podem ver a wok, minha caçarola oriental que consegui comprar por R$ 77 (na maioria dos lugares estava mais de R$ 100), o meu Bambu Steamer, ou seja, cestinha de bambu para fazer as empanaditas no vapor, travessinhas e palitinhos japoneses e uma bandeja chinesa. Tudo garimpado pelo melhor preço naquela tarde mesmo. Dá para imaginar que não foi tão rápido assim. Aliás, os objetos de decoração (travessas e bandeja) eu comprei à noite, quando voltei à liberdade depois de ter deixado as compras do Mercadão em casa. Pois não consegui entrar na Marukai, nem nos empórios menores, à tarde. Na véspera do dia das mães, a fila para o caixa dava a volta na loja inteira.

Street tudo





A Liberdade, aliás, é o Paraíso para quem gosta de street art. É tudo de bom para quem consome cultura de rua: street art, street food, street tudo. Nas fotos, OsGêmeos, artistas diversos e Titi Freak

A coxinha do Titi Freak














A parada seguinte foi para tentar comer uma coxinha no Yoka, na Rua dos Estudantes. Mas estava lotado (a foto é de alguns dias depois). Quem me indicou essa casa foi o grafiteiro Titi Freak. Titi, que já expôs no Masp e em vários museus do exterior, é morador da Liberdade e um grande apreciador de comida de rua. Fiz uma reportagem com ele sobre comida de rua para a revista Casa e Comida, mas acabou não saindo porque eu sai antes. Na foto Titi está comendo uma empadinha em frente a um dos muitos grafites seus espalhados pelo bairro.

Recuerdos de Jericoacoara



Não foi por acaso que cheguei em casa às 22hs. Dei uma série de paradinhas. A primeira delas: logo ao desembarcar do metrô na Estação Liberdade, encontrei uma banca de rendas de bilro. Artesanato do Ceará. Parei e comprei uma toalhinha para decorar a casa para a noite. Na segunda foto, ela já está no móvel do hall de entrada de meu apartamento (onde há um monte de livros também). Dona Neusa, que faz a renda, disse que está lá todos os sábados, na Praça da Liberdade, bem na saída do metrô, mas se você quiser ligar, peguei um cartão: (11) 6742-0045.

Experiência completa



As compras são parte fundamental no preparo de um jantar especial. Quem não cozinha talvez não entenda, mas o prazer começa na hora em que estamos escolhendo a cebola, procurando o tempero especial, provando o que o feirante nos oferece. Mas, confesso, raramente faço compras em outro local que não seja o Pão de Açúcar ou o sacolão que tem aqui perto de casa. Mas nesse dia, decidi que a coisa precisava ser uma full experience. Eu iria aos locais mais típicos atrás dos ingredientes que precisava, mesmo porque muitos deles eu não acharia em qualquer lugar.
O plano era acordar umas 9 horas, ir à Liberdade, depois ao Mercadão e, por último, ao Santa Luzia. Só que tive insônia na noite anterior e acordei às 11h. Saí de casa às 13h. Desci uns dez quarteirões a pé até a Estação Barra Funda do metrô. Nos próximos posts, vou tentar fazer uma "fotonovela" da minha jornada insana em busca do ají amarillo, que só terminou às 22hs, quando cheguei em casa junto com os convidados, com os ingredientes na mão.

Os convidados



Como já disse, decidi fazer esse teste/jantar de um dia para outro. Como o propósito deste blog é desafiar a Lei de Murphy ao máximo e se as coisas derem um pouco errado não é problema, não me preocupei muito em planejar nada. Mesmo assim, tive a cara-de-pau de ligar para um monte de gente. Graças a Deus, a maioria estava viajando ou não teve como desmarcar outros compromissos. Só vieram três pessoas muito íntimas: meu irmão, Marcos, e duas grandes amigas, Juliana e Simoni. Digo graças a Deus porque foi ótimo, muito divertido, mas, se as coisas dessem um pouquinho mais errado do que já deram, seria um desastre. Simoni, Juliana e Marcos entraram completamente no espírito da coisa e acho que até curtiram. Se alguém leu o início deste blog, sabe que as moças acabaram indo embora sem comer o terceiro prato, o tacu tacu, porque ele ainda não estava pronto. Detalhe, elas saíram às 3h30 da manhã.

P a S de será que entendi direito













Os meus ingredientes "chineses". Da dir. para a esq., molho de ostra, vinagre de arroz e sillao, ou seja, shoyo. Na verdade, acho que o shoyo e o vinagre de arroz que comprei são japoneses. Tudo indicação do vendedor, já que não leio nem japa nem china. Comprei na Marukai, na véspera do dia das mães. Quem conhece esse sempre lotado empório de produtos orientais pode imaginar a luta que foi. Na sequência, foto ilustrativa de punto almibar conseguida no Google Images. Ao que parece, é puxa-puxa.

Termos que aprendi (ou quase)

plato tendido - prato raso. Mas confesso que na hora não me preocupei com isso. Falava para servir em prato tendido, mas nem pensei, servi numa bandeja chinesa de melamina que comprei também na Marukai. Acabo de conferir no Google Images. É prato raso mesmo.

punto almibar - disso eu só fazia uma vaga ideia. Arriscamos engrossar bastante. Realmente, pela foto que encontrei no Google, é algo meio puxa-puxa (veja acima).

sazón - seria difícil se não existisse um tempero chamado Sazón no Brasil. Lendo a receita ficou claro que sazón é tempero de modo geral e sazone é tempere.

sillao - molho de soja ou shoyo, como chamamos em São Paulo. O Gastón já tinha me falado desse ingrediente como outra das bases da cozinha chifa.

L a O de obtusa


Não sei por que encafifei que maní significava mandioca. Eu um dia soube que maní é amendoim. Eu fiz espanhol no Cel Lep, me formei no intermediário. Mas li a receita e nem pensei que maní pudesse ser algo que não mandioca. Ele falava em maní tostado e moído, só podia ser farinha de mandioca. Comprei dois tipos de farinha de mandioca no mercadão e uns pedaços de mandioca descascada. Sorte que a "festa" foi toda na cozinha, todo mundo me ajudou com alguma coisa. A Juliana lia a receita alto e eu e meu irmão, Marcos, íamos fazendo, enquanto a Simoni tirava fotografias (mais tarde apresento melhor os convidados). Todo mundo sabia que maní é amendoim e, por sorte, eu tinha um pacote amendoim torrado.


Termos que aprendi (ou quase)

licuados - por dedução, conclui que frejoles licuados eram feijões passados pelo liquidificador. Estou certa, não?

kion - gengibre. Este foi o próprio Gaston quem me disse do que se tratava. Segundo ele, o gengibre é um dos quatro ingredientes básicos da cozinha chifa.

maní - amendoim. Não é mandioca.

masa siu mai - é uma massa de pastel semelhante à do guioza. Na Liberdade, encontrei apenas massa para wantán (veja post a seguir), rolinho primavera e guioza. Na verdade, pelo que apurei, a sui mai tem a mesma receita do wantán, mas é redonda como o guioza. Mas é tudo muito parecido. Naquela noite, usei massa de guioza. Depois vou fazer um teste com wantán e conto para vocês.

olla - panela, caldeirão. Essa é a definição do Michaelis. Naquela noite eu não tinha consultado o dicionário. Falei para meu irmão juntar tudo numa olla e ele quis me matar. "O que é uma olla?". Chutei certo: panela. Usamos o wok que eu comprara naquela tarde.